Entrevistando Emília Cardoso Martinez

Conheci a Emília em 2013, quando apresentei o aikido para o meu filho, com 7 anos na época (ele se tornou aluno dela um ano e meio depois disso). Fomos assistir a aula infantil e nos deparamos com um tatame incrivelmente lotado de crianças: umas 25 ou 30. Pouco antes do início do treino, as crianças brincavam com bolas, corriam, caiam, rolavam. Diante daquela energia toda, impossível acreditar que Emília sensei conseguiria dominar a aula. De repente, escuto 2 palmas, um sonoro “hai” e as crianças então arremessam as bolas para o vestiário e rapidamente se alinham para iniciar o treino. Do caos a calmaria em poucos minutos.

Meu filho praticou aikido com ela por 9 meses, até a Emília sair de licença maternidade. Era muito interessante vê-la conduzir aquelas aulas; com seu jeito único e espontâneo, Emília se “misturava” com as crianças provocando-as de forma lúdica e animada sem perder o respeito e a liderança da turma. Como ela mesma diz ” as vezes nem parece aikido”, mas é! As aulas são agitadas, lúdicas e dinâmicas e dentro delas o conceito de aikido vai sendo assimilado pelos pequenos e os primeiros passos para essa arte marcial vão sendo conquistados pouco a pouco. Eu costumava brincar que as aulas dela eram “uma bagunça organizada”. E assistir aquilo tudo, vendo o carinho da meninada com ela, abraçando, beijando, levando bilhetinhos, presentes, ficando nervosos com a data dos exames de faixa e recebendo o apoio dela, era lindo!

Encontro Emília em alguns seminários e é muito divertido a prática com ela: seu jeito direto, verdadeiro e sincero transformam o treino, que fica leve e ao mesmo tempo firme, mas terminando constantemente numa gargalhada pelo seu humor sempre presente.

Participei de um encontro de mulheres aikidokas em 2014, organizado pela sensei Anne Marie de Campinas, onde puder acompanhar e aprender com o aikido da Emília e do quanto ela se sente a vontade nessa arte marcial. (tão a vontade que minhas melhores fotos no aikido são dela, enquanto ela estava na banca com outros senseis durante os meus exames de faixa! rsrsrs)

Convidei Emília para a entrevista que segue abaixo e fico muito contente que ela tenha aceitado deixar um pouco da sua história no aikido registrada aqui no blog.

“Domo arigatou, Emilia! Gratidão por ensinar os primeiros passos do aikido para o meu filho! É sempre um prazer e uma alegria te encontrar e dividir o tatame com você!” 😉

Entrevista com Emília Cardoso Martinez

Emília Cardoso Martinez tem 38 anos é natural de São Paulo, capital. Formada em Fisioterapia, possui mestrado pela Santa Casa de SP. Além disso, é professora universitária na FMU (fisioterapia ortopédica), ministrando aulas também em pós graduações de ortopedia e oncologia. É godan (5o dan) de Aikido e é atualmente responsável pelas aulas da turma infantil da APA – Associação Pesquisa de Aikido, que acontecem todos os sábados das 9:30hs as 11:00hs.

Começou a treinar com 11 anos de idade, em 1993 e se graduou shodan (faixa preta) com 17 anos, em 1999. Depois disso fez faculdade, “virou adulta” (como ela mesma diz), fez mestrado e teve um filho, o Felipe, que hoje tem 4 anos. O Aikido sempre esteve presente na vida dela; atualmente em menor intensidade, mas sempre lá! Todos os sábados ela sai de casa com o Felipe e vão treinar.

1. Como você conheceu o aikido e com quem iniciou sua prática?

Coisas de pai. Sempre fui muito ativa: pratiquei judô, ginástica olímpica e precisava de alguma coisa para gastar a energia. Quando abriu uma academia com aulas de Aikido próximo de casa, fui matriculada na semana da inauguração. Era um ex-aluno do Ono sensei, e eu tinha praticamente aulas particulares com um senpai faixa marrom que se dedicava a dar aulas para as crianças. No começo foram muitas aulas sozinha; o professor era ótimo com crianças. Mais tarde a academia fechou e então comecei meus treinos com Lila sensei na turma infantil da APA. Quando comecei a treinar com adultos, meu pai também iniciou os treinos, para me acompanhar.

2. O que te motivou a continuar praticando aikido e o que te encanta até hoje?

Meus pais sempre insistiram muito; fui muitas vezes obrigada. Até hoje não entendo como treinei adolescente, eu era terrível! Lembro que treinava com o sensei Ricardo Kimati; nunca agradeci a ele por ter me tolerado todos aqueles anos sombrios da adolescência. Hoje eu agradeço a insistência dos meus pais pois o aikido é parte de mim, é onde gosto de estar, simplesmente me sinto bem. Não tenho o costume de estudar Aikido, gosto de estar no tatame, conhecer pessoas, sair de lá e ter uma vida normal.

3. Você engravidou e continuou dando aulas. Conte como foi esse período e como foi o retorno aos tatames após o nascimento do Felipe?

Nossa! Foi um pesadelo! Tive muita náusea desde o começo; todo mundo disse que depois do terceiro mês iria melhorar mas foi até o dia do Felipe nascer. O único treino que fiz grávida deveria estar de 4 semanas e nem sabia ainda. Depois que o Felipe nasceu tudo piorou pois não tinha tempo. Hoje ele tem 4 anos e só consigo treinar em eventos esporádicos pois minha carga de trabalho e os horários do treino não são compatíveis com a rotina dele.

4. Você é a responsável pelo treinamento das crianças na APA (Associação Pesquisa de Aikido). Como foi seu caminho para ser sensei e por que escolheu ensinar crianças?

Eu “ganhei” a aula infantil! É aquela coisa que você é assistente e um dia você vira sensei. Gosto muito das crianças, não tenho vontade de dar aulas para adultos. Sinceramente acho que não sou capaz.

5. Você prepara suas aulas antecipadamente? Qual o foco principal das suas aulas? Quais as principais diferenças em ensinar crianças e adultos?

Eu falei que não estudo Aikido e já vou me contradizer: sempre pesquiso exercícios e jogos pra as crianças; toda semana monto um circuito diferente com várias atividades. Somos muito lúdicos, temos pouca técnica, a aula é completamente diferente dos adultos, as vezes nem parece Aikido.

6. De um modo geral, percebemos que o aikido envelheceu: encontramos praticantes mais velhos do que os jovens no tatame. Por que você acha que isso acontece? Na sua opinião, o que poderia ser feito para mudar esse quadro e o aikido atrair cada vez mais os jovens e/ou manter as crianças praticando essa arte marcial?

Olha, sempre fui a mais nova, eram raras as pessoas de minha faixa etária. Hoje tenho quase 40, tem muita gente mais nova mas poucas pessoas insistem. É muito difícil manter constâncias nas atividades; a vida muda, mudamos junto e temos necessidades diferentes. Não acho que precisamos vender Aikido; se você gosta venha e treine! Hoje temos muita informação, acho que divulgar a arte como o canal Aikido Brasil tem feito é o suficiente.

7. Em algum momento, por ser mulher, você encontrou obstáculos nessa prática, treinando ou ministrando aulas? Poderia dar exemplos?

Nossa, isso daria umas 4 páginas de história, talvez por isso nunca tenha dado aulas para adultos. Nós mulheres somos minoria, e talvez para tentar sobreviver nunca vesti a camisa do “time das meninas” virei outra minoria. Para me encaixar sempre fui bastante severa comigo, talvez uma das falas que mais me deixe desconfortável é aquela máxima: – Nossa como você treina bem para uma mulher! Aprendi a me defender ignorando o fato de ser a menina da academia. A primeira “situação constrangedora” que sofri dentro do tatame, tinha uns 13/14 anos, na época e não entendi a complexidade da situação. Fui crescendo e tentando evitar ao máximo esse tipo de experiência. Hoje, acho suficiente dizer que tenho bons amigos que quando olho para eles com os olhos arregalados sou prontamente socorrida.

8. Quais as maiores dificuldades que uma praticante de aikido encontra durante o seu caminho ao longo do tempo?

“Nossa Emília, até que você treina bem por ser uma mulher”... normalmente essa frase vem acompanhada de um “ Gosto de treinar com você porque você é cheirosa.” Se eu ganhasse uma moeda por cada vez que ouço essas frases, estaria com meu cofrinho cheio.

9. Com quais senseis você já treinou (nacionais ou internacionais) e que te marcaram ou modificaram o seu aikido de alguma forma?

A vinda do Doshu em 2006 foi um divisor de águas na minha vida no Aikido. Estava desanimada, cansada do Aikido e mais uma vez meu pai deu aquela empurrada e foi sensacional! Aquelas pessoas todas vindo de todos os lugares, conheci tanta gente, treinei com tanta gente, foi como se eu estivesse começado o Aikido de novo. Gosto e admiro muitos, mas sensei Tissier e Yamada sempre foram meus preferidos. A sensei Yoko Okamoto mudou alguma coisa dentro de mim, fiquei encantada. Os brasileiros são meus amigos, não vou citar nomes pois não quero ser injusta. Mas Lila sensei sempre foi minha AikiDiva, um grande exemplo.

Emília e Lila sensei

10. Quais senseis mulheres são suas referências atualmente? Já treinou ou tomou ukemi de alguma delas? Comente como foi essa experiência.

Tomei umas boas da sensei Okamoto, foi bom para ficar esperta. Quando alguma coisa dá certo ou errado é para minha mãe do Aikido que eu corro: Lila sensei sempre meu ponto de apoio.

11. O número de mulheres senseis, principalmente no Brasil, é pequeno. Como isso pode ser mudado?

Um daycare ajudaria com as crianças.

12.Você concorda que existam menos mulheres do que homens praticantes de aikido? O que você acha que poderia ser feito para mudar isso?

Todas as meninas promissoras quando se casam, tem filhos não conseguem continuar, é uma mudança muito grande. Se a rede de apoio não for maravilhosa, sem chance de continuar.

13. Na sua opinião, os grupos e organizações de aikido realizam um trabalho integrado, unido, com o propósito da divulgação da nossa arte marcial?

Não, de maneira nenhuma. Os mais novos talvez sim! Mas existe muito “bairrismo”, briga por espaço e reserva de mercado por parte de algumas organizações que ainda não entenderam que se todos se juntarem será muito melhor.

14. Como você vê o aikido nos dias de hoje (está crescendo, há interesse das pessoas, etc) e quais são suas expectativas para o aikido no futuro?

De uma maneira geral as pessoas procuram mais atividades físicas. Hoje importa muito gasto energético e tempo reduzido e acho que duas horas de aula de Aikido não cabem na agenda de ninguém.

Gostaria de deixar suas observações finais?

Não vou ser hipócrita e dizer que o Aikido me espiritualiza e me faz viver melhor em sociedade e compreender o outro e eu mesma. Eu já vivi mais tempo com o Aikido que sem ele; foi uma formação para mim, não uma mudança como para a maioria das pessoas.

Eu aprendi a me defender; primeiro na escola, depois no trabalho. O Aikido já me tirou de situações que sem ele seriam impossíveis; não estou falando de jogo de cintura ou resiliência, estou falando de defesa e contato corporal. Situações que a força não me favoreceria se não existisse um treinamento prévio.

Uma coisa muito marcante que o Aikido me ensinou na marra foi hierarquia e respeito incondicional com pessoas mais experientes que eu. Isso me ajudou, mas também me atrapalhou muito na vida. O ciclo natural para mim é: o mais experiente te ensinar, não o iniciante.

Ono shihan e Emília sensei

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