O movimento na espera

foto de Jun Kozuki

(título do texto de Andrea Zanetti)

Tenho recebido muitos comentários positivos sobre os textos e assuntos que apresento aqui no blog, “Mulheres no Tatame”. O objetivo sempre foi trazer luz para o aikido, disponibilizando mais um canal de trocas, de informações e pesquisas sobre mulheres que treinam e/ ou trilham esse caminho comigo. A idéia nunca foi segmentação e sim união.

Curiosamente percebi que o nome “Mulheres no Tatame” pode sugerir distanciamento e exclusão de um grupo ou gênero, visto que senti em algum momento uma “recusa” de (poucas) colegas em responder a pesquisas para este espaço ou enviar seus depoimentos para publicação em outro perfil que administro com outras mulheres no Instagram: @aikido.ladies. Isso me fez refletir sobre o caminho que quero percorrer com este blog, porém manter sempre o respeito e a escuta para quem diverge da minha opinião.

Minha querida senpai e parceira de aulas particulares de bokken (quase 5 anos) e de exames de faixa (fizemos praticamente quase todos os exames juntas), Andréa, me relatou sobre esse “incomodo”.

Andréa é uma excelente aikidoka! Dessas que você admira pelo carinho, respeito e amor que ela tem pela nossa arte marcial. Através do olhar dela, pude conhecer vários senseis pelos vídeos que me enviava, entender sobre a disciplina e etiqueta no “Budo” e sonhar com os treinos no Japão, que se concretizaram em 2018.

Argumentei com ela sobre as diretrizes do blog e do perfil Aikido Ladies; qual era o objetivo de juntar essas mulheres em mais um local de pesquisa do aikido e que seria fiel ao que ela teria para dizer.

Alguns meses se passaram até ela me mandar o seu relato (o qual achei mais adequado publicar aqui no blog) e, gentilmente, ela me envia também uma versão em inglês! 😉

Mesmo que discordemos do propósito deste espaço, concordo com ela que não deveria (nem deve) haver “fatores de limitação ou exclusão de pessoas” no aikido. Porém não podemos negar que isso exista de fato.

Abaixo, o belo relato dela e sua experiência em terras portuguesas, com apoio de um grupo de aikido que a acolheu quando ela mais se sentiu vulnerável.

“Obrigada Andrea Zanetti pela sinceridade e por dividir comigo o tatame e seu carinho!”

O MOVIMENTO NA ESPERA

Por Andrea Zanetti

Erika Baldo, há algum tempo, conta-me sobre o blog “Mulheres no Tatame”. Bem…confesso que em grupos formados em torno de um interesse comum, valores objetivos – tal como se dá na prática do aikido – questões relativas a raça, origem, idade, crença, gênero, deficiências não devem ser fatores de limitação da participação ou exclusão das pessoas. Aliás, tais pontos também não deveriam ser utilizados para tratamento discriminatório ou isolamento em pequenos grupos.

O tatame, para mim, corresponde a vida. É um momento que se sente a vida…  e a vida não está só em mim, mas também no meu parceiro ou na minha parceira de treino. Claro, segundo as características do(a) parceiro(a) vou precisar de um esforço extra ou adaptar meus movimentos para que ocorra um bom treino para ambos, e isso faz parte da vida. É uma oportunidade de conhecer a si e, dentro do possível, o outro. Só isso já é trabalho para uma existência inteira, fora os cuidados com a técnica. Por essas razões tendo a participar de iniciativas e grupos onde coexistam diferenças ou haja um esforço real para que assim seja.

Por isso mesmo, inicialmente, relutei em fazer o presente artigo para o blog, mas, após refletir um pouco, concordei em deixar o relato da minha experiência aqui por dois motivos: 1º) acredito que este blog, em algum momento, terá a sensibilidade de procurar por essa diversidade existente no aikido, segundo aquilo que nos une como praticantes dessa arte, pois as pessoas que tomaram a iniciativa também tem essa consciência  e 2º) o meu relato poderia ser a fala de qualquer outra pessoa que foi desafiada em manter sua prática marcial em tempos de pandemia, e não porque sou uma mulher.

Pois bem, colocados esses pontos, aí vai o relato de quem estava longe de casa e foi surpreendida pela pandemia do covid-19, como boa parte do mundo no ano de 2020… 

Mudei para Lisboa a fim de cursar pós-doutorado em Direito em 2019. Como praticante de aikido há mais de 7 anos e sem nenhuma referência de onde treinar em Portugal, tive a sorte de encontrar um grupo de aikido na própria universidade que se dedica a treinar com seriedade. É claro, detalhes podem mudar algumas vezes, mas a base do aikido estava lá. E isso realmente me fez senti em casa…

Com 6 meses em Lisboa, eu já estava integrada ao grupo de aikido. Repassávamos alguns movimentos após o treino, katas que até então não conhecia e até chegamos a uma boa conversa, após o treino, nas muitas padarias da cidade. Então, eis que recebemos a notícia de que o ginásio, dedicado aos esportes de combate, não poderia ser mais usado para a prática de artes marciais e as aulas estavam suspensas a fim de evitar a disseminação de uma doença contagiosa que já estava causando muitas mortes na Itália.

 O ginásio se tornou hospital de campanha. No início, não sabíamos muito o que fazer e, honestamente, estava a sentir falta dos meus parceiros de treino. O primeiro passo foi a sugestão de alguém que tomou a iniciativa e sugeriu que formássemos um grupo virtual, por aplicativo, para manter contato. Aos poucos, e sem pretensão, esse pequeno grupo começou a trocar material sobre aikido, dividir dificuldades do dia a dia e cada um começou a aportar um pouco de si nesse grupo. Começamos a conhecer mais sobre a história de cada um, mesmo a distância. É difícil colocar em palavras, mas pude sentir o respeito de cada um dos membros desse grupo por cada integrante e por aquilo que começamos a formar em conjunto. Cada um trazia um pouco de sua história, mas sem exageros, sem falar demais, dando o espaço também para o outro. 

Então, soube que a pandemia atingiu também o Brasil, não levou muito tempo e a situação por lá também obrigou que as pessoas se recolhessem, ao menos quem podia.  E, como alternativa as aulas presenciais, o sensei Léo Sodré começou a disponibilizar aulas virtuais de maneira gratuita. Aliás, uma hora dessas vou escrever só sobre ele. E não é em virtude do talento que possui, de sua postura marcial ou da sua consciência corporal, mas honestamente é em virtude da pessoa que ele é e de sua generosidade. É impressionante vê-lo evoluindo como professor, profissão que também compartilho, e vê-lo adotar uma atitude altruísta nessa época difícil, onde vivemos tempos estranhos. Enfim, é um exemplo um para mim, mais uma vez através de gesto e atitudes.

Bem, comentei das aulas disponibilizadas pelo Léo sensei no pequeno grupo virtual de aikido que formamos em Lisboa e, já que não podíamos sair de casa, começamos a experimentar as aulas num horário compatível para que todos pudessem estar juntos on line. É claro, não havia a presença física, mas o fato de estarmos juntos virtualmente para a prática do aikido nos motivou, mantivemos as aulas, trocamos impressões, dificuldades, começamos a repassar os katas após os treinos online, em resumo, nos unimos através da prática do aikido mesmo virtualmente. Aos poucos, antes de iniciar as aulas ou após os treinos virtuais, havia espaço para fala, para escuta e também para um momento de silêncio na presença do outro. Mais uma vez, as palavras são limitadas para expressar a experiência, mas de certa forma, ao manter a prática também cuidávamos de nós e dos outros. A relação aprofundou-se. Manteve-se o ânimo, permanecemos no combate, por assim dizer.

Aliás, não posso negar que fui uma das pessoas que mais recebeu e recebe desse grupo. Longe de casa e com várias aventuras inesperadas acontecendo em minha vida, inclusive em aspectos de saúde, recebi do grupo a disponibilidade de ajuda de pessoas que não esperava. Não havia obrigação, não havia necessariamente retribuição ou dever de ajuda…. mas isso aconteceu naturalmente, sem sobressalto, tal como aconteceu o surgimento desse grupo. Já não sabemos de quem foi a iniciativa do grupo que nos uniu e isso nunca importou porque somos exatamente isso: um grupo. Depois desse tempo de aparente isolamento social a conexão entre nós aconteceu à distância, de uma forma inexplicável, permeada pela prática que nos une. As palavras, ainda que bem pensadas, não são suficientes para fazer frente ao que se sente, mas reconhecendo que esse acontecimento é raro, não posso de deixar de fazer o registro. 

Tempos difíceis e crises podem ter muitos significados. Definitivamente, não é um momento estático e não há por que concluir que simplesmente algo acabou ou não há mais o que fazer. Algo como “vamos sentar e simplesmente esperar”. Não me parece aconselhável aguardar de forma passiva, portanto. No aikido, e me parece que em qualquer arte marcial, mesmo a aparente “espera” é ativa. Há sempre um estado de prontidão (que, aliás, não é o meu forte, devo dizer).  Mover junto com os acontecimentos, por outro lado, também é arte que poucos dominam… De toda sorte, ainda que eu possa me mover de forma descompassada (e normalmente sou assim), o que fica como reflexão pessoal, é que a minha postura frente aos acontecimentos, frente a mim mesma e ao outro faz, sim, a diferença.  Esse grupo existiu porque houve o movimento dentro da espera…  Esse é um ensinamento que não vou esquecer.    Bia Orcinha, Clara Apolinário e Filipa F., agradecimento especial. Agradeço o que aprendi por intermédio de cada uma e faço votos para que sigam na prática do aikido.

Versão em inglês

Movement in the wait

Erika Baldo, some time ago, tells me about the blog “Mulheres no Tatame” (“Women on the Tatame”). Well…I have to admit that as far as groups created around a mutual interest, objective values – as can be seen in the practice of Aikido – matters relating to race, origin, age, belief, gender or deficiencies should not be limiting factors in people’s participation or exclusion. In fact, such matters should also not be used to discriminate against or isolate in small groups.

            The Tatami, for me, corresponds to life. It’s a moment when life is felt…and life is not just in myself but also in my training partner. Of course, my partner’s characteristic, will require me to make an extra effort or adjust my movements so that we both may have a good practice, and that is just part of life. It’s an opportunity to get to know one’s self and, as much as possible, the other person. That, in itself, is enough work for an entire existence, let alone the effort required technically. For these reasons, I tend to participate in groups or initiatives where differences co-exist or where there is an actual effort to make it so.

            This is why, at first, I was a bit reluctant in writing this article for the blog but, after thinking about it, I agreed to leave an account of my experience here for two reasons: 1. I believe that this blog, in due time, will have the foresight to look for that diversity, as it exists in Aikido, and which unites us as practitioners of this art; and also 2. my own account could have been anyone else’s, anyone that was challenged to continue their martial arts practice, not just because I am a woman.

            Well, now that I’ve introduced this point of view, here is the account from someone that, far away from home, was surprised by the Covid-19 pandemic, much like most of the world in 2020…

            I moved to Lisbon in order to do my postdoctorate in Law in 2019. As an Aikido practitioner for more than seven years and with absolutely no reference as to where I should continue my practice in Portugal, in turned out to be exactly in the university that I found a group that practices in earnest. Details may change sometimes but the basis of Aikido was there. And that was what really made me feel at home…

            After six months I was already a part of this group. We would revise some movements after class, katas I did not know, and even some good conversations would ensue, after practice, in many of the city’s bakeries. That was precisely when we heard the news that the gym used for combat sports, would no longer be available and the classes had been suspended in order to avoid the spread of a contagious disease already claiming many lives in Italy.

            The gym became a field hospital. At first we really didn’t know what to do and, quite frankly, I missed my training partners. The first step came when someone suggested we create a virtual group, using an app, to keep in touch. Little by little, this small group started exchanging Aikido material, sharing everyday difficulties with each member giving a bit of themselves, without any sort of pretension. We got to know each other a bit more. Even at a distance. It’s hard to put it into words but I could feel the respect each member had for one another and for what we were starting to become, together. Each person would bring a little of their history, but without excess, without overspeaking, always leaving a room for the other.

            Then I heard the pandemic had also hit Brazil, it didn’t take very long, and the situation there forced people to stay indoors, those that could. As an alternative to dojo classes, Leo Sensei began making virtual classes available, for free. Actually, one of these days I will write just about him. And not just because of the talent he possesses, his martial attitude or his body awareness, but frankly, because of the person he is, because of his generosity. It is impressive to see him evolve as a teacher, a profession we both share, and to see him display such a selfless behaviour in these difficult times. These are strange days we are living in. Anyway, he is an example to me once more, through his gesture and attitude.

            Well, I happened to mention the classes made available by Leo Sensei in the small virtual group from Lisbon, since we were unable to leave our homes, and we proceeded to try them out online, in a timetable that would work for everyone. There was no physical presence, of course, but the fact that we were able to be together virtually, practicing Aikido, motivated us and we kept on, exchanging ideas, difficulties, we started practicing katas after the online classes and, in short, we became closer through the practice of Aikido. Slowly, before the start of a class or after the virtual practices, room was made to talk, listen and even share a moment of quietness in the presence of one another. Once again, there is a limit to how words can describe an experience but, in a way, while maintaining the practice, we looked after ourselves and each other. Relationships deepened. Spirits remained high, we remained in the fight, so to speak.

            Actually, I cannot deny that I was one of the people that got and still gets the most out of this group. Far away from home and with so many unexpected adventures happening in my life, healthwise as well, I received an availability of help from this group, from people that I did not expect. There was no obligation nor was there necessarily a retribution or a duty to help…It happened naturally, without fuss, much in the same way the group was created. We don’t know anymore whose idea it was to start this group that brought us together. That never really mattered because that is exactly what we are: a group. After all this time of apparent social isolation, this connection between us happened at a distance, unexpectedly, permeated by the practice that unites us. Words, even if well thought out, are not enough for what you feel, however, recognising this rare event, I cannot but record it.

            Crisis and difficult times can have many meanings. They are definitely not still moments and there is no reason to conclude that just because something is apparently finished, there is nothing else to be done. Something like “let’s sit and wait”. Therefore, I do not find it advisable to wait passively. In Aikido, and as it seems to me, in any martial art, even the apparent “wait” is active. There is always a state of readiness (which is not my strong suit, I might add). Moving alongside events, on the other hand, is also an art that few have mastered…In any case, even though I may move out sync (and I am, normally, like that), what remains as a personal reflection, is that my own attitude before events, mine and other people’s, does, indeed, make a difference.

            This group exists because there was movement in the wait…That is a teaching I will not forget.

            Special thanks to Bia Orcinha, Clara Apolinário and Filipa F. I thank you for what I learned through each one and I hope that you will continue to practice aikido.

Translation made by Filipa F.

2 comentários em “O movimento na espera”

  1. Sou homem praticante de aikido e não me sinto de maneira nenhuma excluido pelo conteúdo colocado aqui. Muito pelo contrário, tem sido um lugar de imenso aprendizado pra mim. Gostaria muito de continuar lendo o que vocês tem a dizer sobre o aikido da perspectiva de vocês mulheres.

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