O impacto do Aikido

No último sábado, 04 de julho de 2020, eu, Erika, representando o blog Mulheres no Tatame, junto com minha parceira de treino, Dresler Aguilera, convidamos duas amigas, Margareth e Estelle, também aikidokas, para falar sobre o impacto do aikido na vida pessoal e profissional de cada uma.

Fiquei muito feliz (e tímida, confesso rsrs) em participar desse bate-papo, que foi bastante descontraído, e trouxe a tona muitas sensações que vivenciamos no tatame e que por diversas vezes, não conseguimos entender.

Foi interessante perceber que cada uma de nós enxerga o aikido de maneiras diferentes, mas ao mesmo tempo entendemos que em nossa essência feminina, precisamos lidar com aspectos físicos que mudam a nossa dinâmica de treino. Os ciclos hormonais alteram a atenção, a agilidade, ou podem facilitar o aprendizado, dependendo do momento que nossos corpos e ciclos se encontram. E esses encontros e conversas são importantes para nos entendermos como mulheres e procurar respeitar esses momentos, focando em aspectos do treino mais eficazes para a nossa prática.

Essas discussões são bastante ricas no sentido de identificarmos situações em comum que passamos no tatame, seja lidando com nossas emoções ou essas mudanças, ou ainda com parceiros que de uma forma ou de outra tentam se impor sobre a sua prática ou sua condição feminina – travando os movimentos, usando a força ou simplesmente nos tratando como algo “quebrável”.

O Brasil ainda é um país com grande “desequilíbrio” entre homens e mulheres praticantes de artes marciais. Mas quero acreditar que diante de alguns movimentos do fortalecimento do feminino, que abrem oportunidade para nos expressarmos, para nos reconhecermos e nos identificarmos com outras mulheres praticantes, essa equidade de gênero seja cada vez mais presente.

Existe muito preconceito, ainda, com relação a mulheres artistas marciais; idem para os homens quando se identificam com o segmento da dança, por exemplo. Mas sou bastante otimista quando percebo que, para esse cenário começar a mudar, depende, em partes, da nossa atitude enquanto sociedade, pais e/ ou educadores, em apresentar esses dois mundos para qualquer gênero na fase da infância. Tenho quase certeza de que esse estranhamento não será mais uma realidade.

Entendo que muito do machismo que existe hoje é consequência dessa maldita mania que temos de colocar as “coisas e pessoas” em caixinhas: “mulheres fazem isso, homens fazem aquilo”; menina não pode fazer isso, menino não pode fazer aquilo”.

Quando pararmos de “rotular” tudo, o ser humano conseguirá ser mais empático, e nós seremos mais livres, leves e felizes nas nossas escolhas.

Uma sensação comum a todas nós durante esse encontro foi que sempre tentamos treinar como os homens, seja para sermos aceitas num grupo de bons praticantes, seja para parecermos fortes ou para passar credibilidade. Talvez seja pelo fato da quantidade de mulheres ser menor nos treinos e a referência que temos é sempre masculina, e então tentamos replicar aquilo que recebemos.

A reflexão que faço sobre a nossa conversa é que ao compreendermos nossa essência feminina, entenderemos de fato quem somos enquanto praticantes de aikido. Se precisamos forçar uma postura de treino para ser aceita como parceira, alí já não existe aikido. “Ah, mas aí não vou conseguir bons parceiros??” Bem, isso diz muito mais sobre o outro do que sobre você. Se o outro te subestima ou não consegue praticar com qualquer aikidoka, seja graduado ou iniciante, essa pessoa não entendeu nada do que é essa arte marcial. Se um aikidoka só procura “parceiro bom” talvez ele próprio não seja um deles. E na minha opinião, se você encontra essa postura no seu dojo, caia fora! Não me parece um ambiente saudável, acolhedor e amistoso.

Aikido é sim difícil! Nos relacionamos com todos os tipos de pessoas. Diferente de outras artes marciais, a maioria competitivas, onde o peso, o gênero e a idade te separam por categorias, na contramão disso, aikido é pra todo mundo. E por ser assim tão democrático é que é mais difícil: aikido é transgressor, pois não te coloca “numa caixinha” – o próprio fundador não treinava sempre do mesmo modo, e então não podemos (nem devemos) nos rotular. Talvez seja por isso também que eu pratique essa arte marcial: sou livre para treinar com qualquer pessoa ou até individualmente; tenho liberdade para criar possibilidades e variações através da mesma abordagem; observar resultados diversos de uma técnica aplicada em pessoas com tamanhos diferentes. Posso me arriscar, testar meus limites. Reconhecer que os medos vão se dissipando e dando espaço para que eu caminhe de cabeça erguida num meio ainda tão masculino.

O aikido me dá coragem pra enfrentar minhas “travas“, como bem colocou a Margareth no nosso bate-papo. Pude descobrir em mim uma mulher forte; que é capaz e que pode contribuir para que outras mulheres se fortaleçam também, construindo um aikido mais generoso, harmonioso, acolhedor, respeitoso e porque não, mais feminino! Boa semana! 😉

Impacto do aikido na vida pessoal e profissional

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