Relato de uma (quase) iniciante aikidoka – por Cathy Humphris

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Vou começar este texto dizendo: o aikido nos aproxima de pessoas incríveis! 🙂

Quando a quarentena começou, as redes sociais foram as “portas” para continuarmos a manter contato com os colegas, a família, e porque não, fazer novos amigos. Por causa deste blog e das minhas páginas no Instagram (sim, no plural, porque faço várias coisas ao mesmo tempo e preciso divulga-las! rsrs), me aproximei mais de algumas pessoas que já conhecia pessoalmente, mas também de algumas que só ouvia falar nas rodas de conversas dos seminários de aikido; de pessoas dedicadas, ótimos parceiros de treino e do quanto eram agradáveis, dessas que você fica conversando sem ver o tempo passar.

Um deles foi Ivan Melo sensei, que atualmente mora na Inglaterra, em Londres, casado com Cathy Humphris, também praticante de aikido há cerca de 1 ano e meio. Ambos são alunos de Ismail Hasan sensei, no Aikido of London Dojo, onde Ivan sensei também ministra aulas de aikido.

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Nos aproximamos através das redes sociais, e é sempre uma honra e um prazer conversar com o sensei Ivan: trocamos informações sobre os posts que publicamos, aulas de japonês, shodo, falamos sobre o blog e claro, sobre aikido. E fico muito feliz que ele se lembre sempre de me avisar quando tem algum assunto interessante de aikido ou quando a Cathy (esposa dele) se manifesta sobre nossa arte marcial, me entregando de “bandeja” material para o meu blog e para que o aikido cada vez mais seja divulgado e multiplicado.

Pois bem, mês passado a Cathy participou de um “podcast” com o Ismail sensei e outra aikidoka, que recentemente começou a dar aulas no mesmo dojo, Olya Kolchyna – disponível no Spotify (Aikido of London) para quem se interessar – e esta semana ela (Cathy) escreveu um artigo para a página do Aikido of London Dojo, falando sobre sua visita ao Hombu Dojo e da sua relação com outros praticantes e treinos com diversos senseis. O texto segue abaixo em português, tradução feita por mim (com ajuda do sensei Ivan) e em seguida, o texto dela em inglês, conforme está no site. (https://www.aikidooflondon.com/2020/06/chill-out/).

Muito interessante como ela coloca o sentimento que temos quando alguém nos “corrige” sem acrescentar nada, e o quanto isso pode nos prejudicar, sendo ou não iniciante, bloqueando a percepção do equívoco ou de encontrar novas formas de realizar a técnica.

Agradeço de coração ao Ivan sensei pela oportunidade em divulgar esse texto, e principalmente a Cathy por não desistir e se entregar a essa arte marcial que tanto nos desafia. Espero que em breve possamos dividir o tatame juntas!;-) “Keep going, Cathy! Thank you so much!”

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RELAXARpor Cathy HumphrisMinhas viagens como iniciante e mulher no Aikido

Meu professor Ismail Hasan sensei disse uma vez: “Um sinal de um bom dojo é quando há um equilíbrio saudável de homens e mulheres nele”. Quando o lembrei disso, ele disse: “Eu disse isso? Não me lembro, mas parece bom.”

O que certamente é verdade no Aikido of London, onde comecei a treinar há cerca de um ano e meio. No começo, eu não estava particularmente consciente de um número “saudável” de aikidokas talentosas e dedicadas no dojo. Agora tendo visitado outros dojos nesse meu curto tempo de treino, posso perceber que não é a regra.

Apesar de ser hafu (sou metade japonêsa), eu não conhecia aikido, além de “é uma arte marcial japonesa”. Quando me perguntam o que me atraiu, digo que não foi tão instantâneo da maneira como parece ter sido para os outros. Quando me matriculei como membro no início de 2019, achei que talvez eu fosse uma vez por semana.

Acontece que o Aikido é difícil. Saia da maioria das aulas feliz e cansada, com a cabeça zumbindo e cheia de perguntas. Refletindo, isso não mudou! De qualquer forma, logo percebi que tinha que comparecer mais de uma vez por semana para fazer progressos reais. Eu acho que algo realmente na etiqueta do dojo e na arte em si se comunicava com alguma coisa em mim, e antes que eu percebesse, ele estava dentro de mim pra não sair mais.

Somente no meu primeiro ano, tive o privilégio de ver grandes professores fora do Aikido of London, em seminários e dojos no Reino Unido e internacionalmente: Yahe Solomon sensei, Donovan Waite sensei e Jenny Flower sensei, para citar apenas alguns. Meio ano depois, fui para Tóquio; vesti um hakama (vestimenta preta que os aikidokas usam por cima da calça do dogi) e passei algumas semanas treinando no 3º andar no Hombu! Eu estava extremamente nervosa e às vezes me surpreendo por ter tido a coragem de fazer isso, mas estou feliz por ter conseguido.

O mais incrível sobre viajar e treinar aikido são os corpos diversos com os quais você treina, cada um oferecendo informações diferentes. Quando as pessoas são super leves e flexíveis, como você cria alguma tensão? Quando são pesados ou rígidos e não se movem da maneira que você deseja – como você faz isso acontecer? Alguns dos treinamentos mais informativos e divertidos que tive foram com parceiros que, sem conhecê-los, percebem rapidamente o quanto eles podem te empurrar, ao invés de lidar com você como uma folha de vidro. Nesse momento do meu treinamento, são pessoas com essa sensibilidade que procuro para treinar.

Claro, e como na maioria das coisas, há um outro lado. Se aventurar fora do dojo também traz experiências frustrantes.

Um exemplo sutil: em um seminário, um parceiro desconhecido me disse para não me cansar durante o tai no henko. Em um seminário seguinte, um cara literalmente me disse para “relaxar”. Nas duas vezes, fiquei confusa. Afinal, eu não estava particularmente cansada e estava apenas fazendo o que sei; atacar, cair, levantar e repetir. É exatamente o que fazemos no dojo e parecia ser a mesma atitude no Hombu dojo em Tóquio. Consequentemente, eu não sabia outra maneira de treinar.

Sendo novata, eu tive que engolir. “Talvez tenha a ver por ser iniciante”, pensei. Mas, depois de algum tempo, e em diferentes seminários, quando isso acontece repetidamente, esses pequenos comentários, essas micro agressões, se somam e começam a me irritar. A pergunta que está na minha cabeça é: “Você diria a mesma coisa para um homem?” Curiosamente, as mulheres com quem eu pratico nunca dizem essas coisas para mim. Nem os homens do Aikido of London.

Em uma festa após um seminário de Donovan Waite Shihan, eu e outra pessoa estávamos conversando com ele quando a conversa se voltou para o meu próprio treino. Acabei contando esses episódios para ele, algo parecido com o que me foi dito por um parceiro naquele mesmo dia, e ainda estava na minha cabeça. Acho que o que eu estava perguntando indiretamente era – devo relaxar? Para meu conforto, Donovan Sensei começa a balançar a cabeça. “Não, você sabe o que deve fazer? Você dá um sorrisinho para eles ” (ele solta um sorriso atrevido) “e depois continua a fazer exatamente a mesma coisa”, ele disse. “Ok, farei isso”, respondi.

Eu imagino que qualquer um possa ter preconceitos negativos com outras pessoas por causa do gênero (ou qualquer outra coisa nesse sentido) e o pratique dentro ou fora do tatame, e isso tem muito mais a ver com si mesmo do que com o aikido. O que concluí com minha própria experiência de iniciante é que os verdadeiros e grandes professores ou aikidokas não se deixam conduzir por seus próprios egos e preconceitos, ou pelo menos aprenderam a não fazê-lo.

Eu incentivaria qualquer colega iniciante que ainda não tenha participado de seminários, a treinar com pessoas diferentes e experimentar professores diferentes. Você pode começar a sentir do que é que você gosta e também o que não é dito para você. Espero que você descubra, como eu, que essas duas coisas apenas confirmam o que você já sabia – que o seu dojo é o lugar certo para você.

Para mim, o Aikido of London é uma base excelente para voltar para casa depois de me aventurar em outros lugares. Estou em um local onde todos somos tratados e levados igualmente aos nossos limites individuais, independentemente do tamanho, cor ou sexo. Acredito que isso seja algo passado pelo próprio Ismail Sensei para com os seus alunos. Na maioria das vezes, as pessoas com quem treino, tanto homens quanto mulheres, são divertidas, solidárias e construtivas em seus comentários – verbais ou físicos. Devo muito do meu próprio progresso até agora, ao encorajamento determinado dos meus parceiros, jovens ou mais velhos, os quais também são grandes amigos.

Todas as aulas são misturadas e não há aulas apenas para mulheres (a menos que seja por acaso). Se isso fosse sugerido, tenho certeza de que não seria particularmente favorável, razões pelas quais uma outra pessoa poderia escrever um novo texto, provavelmente com muito mais eloquência do que eu. No entanto, isso não é uma crítica a quem quer seja; afinal as pessoas têm seus próprios motivos.

Pessoalmente, eu adoraria ver mais mulheres ensinando aikido. No Aikido of London, temos a sorte de poder assistir às aulas de Olya Kolchina, uma professora e mulher aikidoka inspiradora.

Infelizmente, o dojo de Okamoto sensei estava fechado para o Obon (um costume budista para honrar os espíritos e seus ancestrais) quando estávamos em Kyoto. Eu adoraria vê-la ensinando; em parte porque notei que ainda não existem senseis mulheres no Hombu Dojo. Treinei brevemente armas com Janet Clift sensei e estou muito interessada em vê-la ensinar também. Espero corrigir essas duas coisas após o término do isolamento.

Curiosamente, minha percepção do meu próprio professor Ismail sensei é que ele é indubitavelmente forte e marcial, e ainda assim não me parece machista – com o qual eu provavelmente acharia difícil de me relacionar. Eu acho que é outra coisa, mas ainda não sei o que. Depois de alguns meses de prática, eu estava conversando com ele e ele disse algo que me impressionou. Ele disse: “Quando há algo no ar, você precisa agarrá-lo ou pode perdê-lo pra sempre”.

É bem difícil de “relaxar” quando você está tentando agarrar esse “algo”.

Report of an (almost) beginner aikidoka – by Cathy Humphris

I’ll start this text by saying: aikido brings us closer to amazing people!

When the quarantine started, social networks were the “doors” for us to continue to keep in touch with colleagues, family, and why not, make new friends. Because of this blog and my pages on Instagram (yes, in the plural, because I do several things at the same time and I need to publicize them! rsrsr), I got closer to some people I already knew personally, but also some that I only listened to speak in conversation circles at aikido seminars; of dedicated people, great training partners and how pleasant they were, the ones you keep talking without watching time go by.

One of them was Ivan Melo sensei, who currently lives in England, London, married to Cathy Humphris, who has also been practicing aikido for about a year and a half. Both are students of Ismail Hasan sensei, at the Aikido of London Dojo, where Ivan sensei also teaches aikido classes.

We approach through social networks, and it is always an honor and a pleasure to talk with sensei Ivan: we exchange information about the posts we publish, Japanese classes, shodo, we talk about the blog and of course, about aikido. And I am very happy that he always remembers to let me know when there is an interesting subject of aikido or when Cathy (his wife) speaks about our martial art, handing me material for my blog and for that aikido be disseminated and multiplied.

Well, last month Cathy participated in a “podcast” with Ismail sensei and another aikidoka, who recently started teaching at the same dojo, Olya Kolchyna – available on Spotify (Aikido of London) for anyone interested – and this week she (Cathy) wrote an article for the page of the Aikido of London Dojo, talking about her visit to the Hombu Dojo and her relationship with other practitioners and training with different senseis. The text follows below in Portuguese, translation done by me (with the help of sensei Ivan) and then her text in English, as it is on the website. (https://www.aikidooflondon.com/2020/06/chill-out/).

Very interesting how it puts the feeling we have when someone “corrects” us without adding anything, and how much it can harm us, being a beginner or not, blocking the perception of the mistake or finding new ways to perform the technique.

I sincerely thank Ivan sensei for the opportunity to disseminate this text, and especially to Cathy for not giving up and surrendering to this martial art that challenges us so much. I hope that soon we can share the mat together!

Chill OutMy travels as a beginner and a woman in Aikido


My teacher Ismail Hasan sensei once said “One sign of a good dojo is when there is a healthy balance of men and women in it”. When I reminded him of that, he said “Did I say that? I can’t remember but it sounds good.”

Which is certainly true of Aikido of London where I first started training about a year and a half ago. At first, I wasn’t particularly conscious of the healthy number of talented and dedicated female aikidoka in the dojo. Having been around a bit now, I realise it is quite unique.

Despite being hafu (half-Japanese), I had no former knowledge of aikido, other than “It’s a Japanese martial art”. When asked what grabbed me, it wasn’t instantaneous in the way that it seems to have been for others. When I fully signed up as a member at the start of 2019 I figured I’d maybe go along once a week. Turns out, Aikido is hard. I walked out of most lessons happy and knackered, head buzzing and full of questions. On reflection, that hasn’t changed! Anyhow, I soon realised I had to attend more than once a week to make real progress. I think something in the dojo etiquette and in the art itself really spoke to something deep inside me, and before I knew it, it had latched on and hasn’t let go since.

Within my first year or so alone I’ve had the privilege of seeing many great teachers outside of Aikido of London, in seminars and dojos both in the UK and internationally. There was Yahe Solomon sensei, Donovan Waite sensei and Jenny Flower sensei to name just a few. Half a year in, I went to Tokyo, donned a hakama and spent a couple of weeks training on the 3rd floor at Hombu! I was nervous as hell and sometimes I’m surprised I had the balls to do it, but I’m only happy I did.

A brilliant thing about travelling for aikido are all the different bodies you get to train with, each offering different pieces of information. When people are super light and floppy- how do you create some tension? When they are heavy or stiff and don’t move the way you want them to- how do you make it happen? Some of the most informative and fun training I’ve had has been with partners who, without knowing you, quickly get a sense for how far they can push you, rather than handling you like a sheet of glass. At this point in my training, these are the people I am trying to grab.

Of course, like with with most things, there is a flip side. Venturing out of the dojo has also come with frustrating experiences.

One of the more subtle examples; at one seminar I was told by an unfamiliar male partner to not tire myself out, during tai no henko. At a subsequent seminar, a guy literally told me to “chill out”. The first couple of times, my response was mostly confusion. After all, I wasn’t particularly tired, and I was only doing what I know; attack, fall, get up, repeat. It’s just what we do at the dojo. It also appeared to be the attitude at Hombu in Tokyo. So as far as I was concerned, I didn’t know any different.

Being junior, I suck it up. “Maybe it’s to do with me being a beginner” I tell myself. But after some time, over different seminars, when this happens repeatedly, these small comments, these micro- aggressions, they add up and start to piss me off. The question ringing in my head is- “Would you say the same thing to a man?”
Interestingly, women I pair with never say such things to me. Nor do the men at Aikido of London.

At an after-party of a seminar of Donovan Waite Shihan, I and someone else were chatting to him when the conversation turned to my own training. I ended up recounting these comments to him, something similar of which had been said to me by a partner that very day, so it was on my mind. I guess what I was asking indirectly was – should I chill out? To my comfort, Donovan sensei starts shaking his head. “No, you know what you do? You give them a little smile,” (he flashes a cheeky smile) “and then carry on exactly the same,” he said. “Ok, I will,” I responded.

I can imagine anyone with negative preconceptions of people based on gender (or anything else for that matter) have them both on and off the tatami, and are far more to do with themselves than they are to do with aikido. What I have concluded from my own limited experience is that the truly great teachers and aikidoka are not shrouded by their own egos and preconceptions, or at least have learnt not to be.

I would encourage any fellow beginners who haven’t already, to get out to seminars, train with different people and experience different teachers. You can start to feel out what it is you like, as well what doesn’t speak to you. Hopefully you may find, like me, that both of these things only confirm what you already thought- that your home dojo is the right one for you.

For me, Aikido of London is an excellent base to return home to after aikido adventures elsewhere. I am in a place where we’re are all treated and pushed equally to our individual limits, regardless of size, colour, background, or gender. I believe this to be something that trickles down from Ismail sensei to his members. For the most part, the people I train with, both male and female, are fun, supportive and constructive in their feedback- verbal or physical. I owe much of my own progress so far down to the unyielding encouragement from my seniors and fellow juniors, with whom I have also made great friends.

The classes there are all mixed and there is no women’s only class (unless purely by chance). If it were suggested, I’m sure I wouldn’t particularly be in favour, for reasons that someone could fill another article with, probably far more eloquently than I could. However, this is no criticism of anyone who would want one and people have their own reasons after all.

Personally, I would love to see more women teaching Aikido. At Aikido of London, we are lucky to be able to attend Olya Kolchina’s classes, an inspiring aikido teacher and woman.

Unfortunately for me, Okamoto sensei’s dojo was closed for Obon whilst we were in Kyoto. I would have loved to have seen her teach, partially as I noticed there are no female teachers at Hombu dojo yet. I’ve trained briefly in weapons with Janet Clift Sensei, and I am very keen to see her teach as well. Two things I hope to rectify after the lockdown has been lifted!

Interestingly my perception of my own teacher Ismail sensei, is that he is undoubtedly strong and martial, and yet it doesn’t feel like machismo- which I would probably find hard to relate to. I think it is something else but I don’t know what yet. A few months into my training, I was having a conversation with him and he said something that struck me. He said “When there is something in the air, you have to grab hold of it or you can miss it.”

It’s hard to “chill out” when you’re trying to catch it.

fotos enviadas por Ivan sensei. Agradecimento ao Aikido of London Dojo e Ismail sensei.

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