Elena Stellfeld de Carvalho

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A primeira vez que encontrei Elena no tatame foi em um dos seminários do meu mestre, Léo Sensei em que participei. Eu era faixa amarela e no vestiário lembro que ela ficou muito feliz em encontrar mais mulheres presentes em seminários. Sempre muito simpática, num determinado momento me chamou pra treinar com ela. Tomei o primeiro ukemi e já pude notar sua força: ela era segura, concentrada, e ao mesmo tempo cuidadosa comigo, uma iniciante. Quando foi a vez dela tomar ukemi, não tenho certeza se era guiaku hanmi ou ai hanmi, só senti aquela pegada firme, mostrando pra mim como se realizava um bom ataque. E então, todas as vezes que a vejo no tatame sinto uma alegria imensa de ter uma referência feminina de qualidade e acessível.

Convidei Elena para uma entrevista e fico muito feliz que ela tenha aceitado deixar seu depoimento no meu blog, nos mostrando que treino e dedicação é o que molda uma boa aikidoka !

“Obrigada pela entrevista, Elena!” 🙂

Abaixo da pesquisa, um vídeo com a demonstração dela no Encontro de Aikidoístas de 2016, em São Paulo, na Sala Crisantempo, organizado por Leonardo Sodré sensei e o Canal Aikido Brasil.

Entrevista com Elena de Carvalho

1. Gostaria que você se apresentasse: nome, idade, há quanto tempo pratica aikido, em qual(is) espaços?

R: Sou Elena de Carvalho Stellfeld, médica (atuo na medicina do trabalho) e tenho 47 anos. Pratico aikido desde junho de 2007. Iniciei o Aikido no Instituto Cultural Campinas Aikikai e depois no Aikido Marcelo do Nascimento. 

2. Como conheceu o aikido? Quem foram seus mestres? Quais são suas referências atualmente?

R: Estava interessada em fazer uma atividade física que envolvesse a troca, o contato com pessoas, e ao mesmo tempo me desse condicionamento físico, então procurei uma arte marcial e meu professor (médico) me recomendou o aikido, que ele tinha feito uma aula de demonstração em São Paulo. Procurei em Campinas, fiz uma aula teste e me encontrei nela. Pratico aikido desde então. Meus professores foram Sensei Severino Sales em 2007 e depois com Sensei Marcelo do Nascimento desde 2011, até os dias de hoje. Somos alunos do Shihan Christian Tissier, que nos inspira continuamente. Já estive em diversos seminários dele e dos alunos dele. Minha maior inspiração hoje vem da Shihan Micheline Tissier, com certeza uma das mulheres que mais dominam o Aikido na atualidade. 

3. Você dá aulas? Quantas vezes por semana, para quais grupos e como se sente? 

R: Não dou aulas regulares, apenas auxilio meu professor quando necessário, ou eventualmente dou aulas em alguns eventos específicos a pedido dele. Para mim, dar aulas é sempre um desafio comigo mesma, de tentar passar o conhecimento da arte marcial que tenho para os que estão no tatame comigo. É como retribuir o voto de confiança para eles, uma missão. 

4. Você e seu marido (Marcelo Nascimento) têm o próprio dojo. Conte como foi esse processo e quais são as vantagens e desvantagens?

R: Sim, meu professor e também meu marido Marcelo Stellfeld do Nascimento, juntos decidimos construir um dojo onde ele poderia passar todos seu conhecimento no aikido com sua própria identidade. Ter um local que consideramos adequado a esta prática, com a infraestrutura de banheiros, área comum, e o maior tatame possível. Decidimos seguir esta idéia; fizemos os cálculos, começamos a procurar terrenos, engenheiro, mestre de obra, funcionários, papelada, e pusemos mãos-à-obra. Criamos o Dojo de Aikido Marcelo do Nascimento, onde praticamos hoje. Acredito que só temos vantagens e responsabilidades, não desvantagens. Ser professor já exige responsabilidade, talvez só tenham sido agregadas mais responsabilidades, além das habituais que um professor já tem: ética, compromisso, cuidado, didática, liderança, harmonia e acrescenta a estas as responsabilidades por um espaço, uma estrutura física, eventualmente funcionários, contas mensais. Há mais preocupações com gastos, horários, ordem, mas isto acredito, faz parte da evolução de um professor de aikido, uma etapa a ser cumprida no crescimento do próprio professor. 

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5. Em algum momento, por ser mulher, você encontrou obstáculos nesse caminho do aikido, praticando ou ministrando aulas?

R: Não, não vi dificuldades por ser mulher ou diferença de gênero; as dificuldades são apenas as que normalmente temos por falta de preparo físico, deficiência técnica. Inicialmente não dominamos nada da técnica, então há maior dificuldade com maior número de colegas; conforme vamos evoluindo esta dificuldade vai diminuindo. O aprimoramento técnico é o caminho que reduz estes obstáculos. 

6. Com quais senseis você já praticou? Já viajou para o hombu dojo/ Japão? Comente suas experiências. 

Já estive em vários seminários do Shihan Christian Tissier, normalmente nos Seminários de Páscoa ou nos Seminários em Santiago do Chile. Já frequentei os seminários da Shihan Micheline Tissier, da Shihan Yoko Okamoto, Myamoto Shihan, Seki Shihan, Yamada Shihan, Shihan Jorge Rojo, Didier Boier Sensei, Pascal Ghuilleman Sensei, Bruno Gonzales Sensei, Stephanne Goffin Sensei, Fabrice Croizée Sensei, Nadia Korichi Sensei, Wu Ha Sensei, Leonardo Sodré Sensei, Sharon Sensei, entre outros. Sensei Marcelo trouxe diversos desses professores no nosso dojo e também para o Brasil, então pude ser uke de muitos deles: Tissier Shihan, Micheline Tissier Shihan, Pascal Guillemen Sensei, Fabrice Croizée Sensei, Stephane Goffin Sensei, Nadia Korichi Sensei e Leonardo Sodré Sensei. Sempre é muita honra e muita responsabilidade estar lá na frente de um mestre, estar atenta para o que ele faz, responder corretamente. Ser chamada como uke é um sinal de crescimento do uke. Nunca estive no Japão mas com certeza isto está entre os meus planos: conhecer o Japão e o Hombu Dojo, o local onde o aikido foi criado e mantem a sua tradição. 

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7. Poderia dizer quais senseis mulheres são suas referencias dentro do aikido atualmente?

R: Me espelho na Shihan Michelline Valliant Tissier, Shihan Yoko Okamoto e Sensei Nadia Korichi. 

8. Você concorda que de um modo geral, existam menos mulheres do que homens praticantes de marciais artes, e consequentemente de Aikido? Por favor, comente. 

R: No Brasil e na América do Sul vemos realmente menos mulheres em comparação com os homens, mas na Europa vemos muito mais mulheres no tatame. Acredito que isto seja cultural, que durante muitos anos houve esta cultura de que apenas homens poderiam praticar alguma arte marcial, que a pratica de uma arte marcial masculinizava a mulher; mas há alguns anos vemos que mais e mais mulheres se interessam em praticar as artes marciais e o Aikido no Brasil. Acredito que esta será uma tendência daqui para frente. 

9. Qual é a proporção de alunas mulheres e homens no dojo? E a dedicação delas é semelhante a dos homens ou você acredita que tem diferença?

R: Atualmente temos 25 homens e 5 mulheres no dojo e na minha opinião a dedicação de todos é similar.

10. Você acredita que exista diferença em treinar com homens e mulheres?

R: Não vejo diferença entre homens e mulheres na prática do Aikido, há sim diferença de domínio técnico dos praticantes.

11. Como você vê o aikido nos dias de hoje e quais são suas expectativas para o aikido no futuro?

R: Hoje o Aikido não está entre as artes marciais mais populares, enfrentando uma grande “repressão” da popularidade do MMA. Além disso, podemos ver que o Aikido está envelhecendo, sendo a maioria dos praticantes com mais de trinta anos. Tudo ficou mais difícil com a pandemia do coronavírus (entrevista concedida na época em que o mundo passava por um surto/ pandemia do corona vírus). Teremos que nos reconstruir, nos reencontrar, para depois nos reerguermos e podermos novamente buscar nosso caminho, nosso espaço dentro das artes marciais. Mostrar que o Aikido é uma arte, por isso tem que ser bela, harmônica e como também é marcial, tem que mostrar sua eficiência técnica. Com muito esforço de cada praticante, de cada Sensei iremos retomar esta caminhada e com certeza mostrar que o Aikido é um caminho de educação em saúde. 

Elena Stellfeld Sensei, é de Campinas e instrutora do dojo Aikido Marcelo do Nascimento. Demonstra suas técnicas no Encontro de Aikidoístas 2016, evento que pela primeira vez reuniu 25 praticantes das diversas escolas de Aikido existentes no Brasil, organizado pelo canal Aikido Brasil e Leonardo Sodré sensei, na Sala Crisantempo, em São Paulo.

5 comentários em “Elena Stellfeld de Carvalho”

  1. Excelente entrevista. Parabéns!! Tenho o privilégio de trinar com a sensei Elena no Dojo Marcelo do Nascimento há cerca de 2 anos, e posso seguramente atestar que seu nível técnico é excepcional. É uma fonte de orgulho e inspiração para nós. Além de possuir uma paciência infinita no trato conosco (iniciantes), está sempre a estimular o desenvolvimento e aprimoramento técnico dos alunos com suas palavras de otimismo e sua dedicação e energia inabalável durante os treinos. Um professor competente e de alto nível é fundamental, e isso nós certamente temos, mas você só consegue desenvolver sua técnica, em uma arte marcial como o AIKIDO, com parceiros de treino como nossa companheira Elena. Como representantes do Shihan Christian Tissier em São Paulo o Sensei Marcelo do Nascimento e sua esposa Elena desensolvem um trabalho sem precedentes para o AIKIDO em Campinas/SP.

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  2. Parabenizo o site pela entrevista!

    Aproveito o espaço para também parabenizar e sempre reverenciar o trabalho da sensei Elena e de seu companheiro, sensei Marcelo. Na breve oportunidade que tive em conhecê-los (como também de conhecer esta prática da cultura corporal [Aikidō]), pude constatar o sério trabalho que desenvolvem ao ministrar um belo dojō com muita responsabilidade, respeito e seriedade. Mesmo não tendo a possibilidade de poder praticar sob a tutela deles, os tenho como uma importante referência na minha formação nas práticas marciais.

    Cordiais saudações!

    Curtido por 1 pessoa

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