Entrevistando meu mestre

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Olá, pessoal! Desde que comecei as publicações deste blog, Mulheres no Tatame, já vinha pensando em entrevistar e divulgar experiências de outras aikidokas, senseis e parceiros de treino. E para inaugurar este bloco de entrevistas, decidi que a primeira teria que ser com a pessoa que me apresentou ao aikido; quem me convidou para conhecer, experimentar uma primeira aula e sentir o primeiro contato com essa arte marcial. Bem, eu tive a sorte de ser conduzida pelo meu próprio mestre, Leonardo sensei! 🙂

E fiquei muito feliz e honrada quando ele aceitou meu convite para responder algumas perguntas.

No início, quando o sensei Léo me convidou para fazer uma aula teste, eu não conhecia nada sobre aikido; minha experiência nas artes marciais vinha da capoeira, onde não temos contato físico, mas muita esquiva, ginga e disciplina. O amor e a dedicação por uma arte marcial vem muito do que você encontra no tatame inicialmente: receptividade, qualidade técnica, verdade, igualdade. Tudo isso faz você continuar ou desistir rapidamente. Aos poucos, o respeito, a disciplina, desafio e superação vão envolvendo você cada vez mais e quando se dá conta, já não consegue mais parar. Léo sensei “provoca” isso na gente com primor. E hoje ainda estou aqui, seguindo esse caminho e tentando todos os dias encontrar respostas e fazer mais perguntas! 🙂

Abaixo a entrevista que o sensei Léo gentilmente me concedeu: guardarei com muito carinho todas as suas palavras. 😉 Em seguida, um vídeo; um dos poucos registros nossos que tenho, num seminário de armas.

“Domo arigatou, sensei! Obrigada por participar!”

Entrevista com Leonardo Sodré sensei

1. Gostaria que você se apresentasse: seu nome, idade, há quanto tempo pratica aikido, há quanto tempo dá aulas, em quais espaços?

Léo sensei: Leonardo Marques Câmara Sodré, tenho 37 anos, treino Aikido há 24 anos, dou aulas há 18 anos e atualmente sou 5°dan. Já ministrei aulas em inúmeros locais, hoje tenho turmas regulares nos seguintes espaços: APA, Sala Crisantempo e Rústica Crossfit, além das aulas particulares que ministro.

2. Como conheceu o aikido?

 Léo sensei: Minha primeira exposição ao Aikido foi através do padrasto de uma amiga minha, que é um dos grandes nomes do Aikido no Brasil, Wagner Okino. Ele me mostrou um vídeo, hoje eu sei que se tratava do Doshu Kisshomaru Ueshiba, filho do fundador do Aikido, mas na época treinava Judô,  achei muito bonito os movimentos. Alguns anos depois, um grande amigo começou a treinar Aikido e quando brincávamos de lutar, ele jogava todo mundo no chão ou encaixava alguma chave, todos meus amigos ficaram impressionados com ele e dediram treinar também, eu apenas segui a turma, inicialmente não era algo que pensava em fazer. Um dia, o Ono sensei aplicou um golpe em mim e naquele instante despertei para a prática. Lembro até hoje dessa sensação, imagina se ao nascer você tivesse consciência que está vivo? Foi exatamente isso, após o golpe me descobri vivo. A partir daí, a cada treino eu descobria, e descubro, um novo universo, a cada treino é um morrer e nascer, ao ponto que o Aikido virou minha vida e espero ser a minha morte.  

3. Quais são/ foram seus mestres enquanto aluno? Quais são suas referências atualmente?

Léo sensei: Meu mestre sempre foi o Ono sensei; foi com ele que iniciei o Aikido e que sempre esteve ao meu lado, tanto na minha formação básica como até hoje. Juntamente com as aulas do Ono sensei, treinava com o Arai sensei e Kimati sensei, que ainda dão aulas no dojo da APA e são alunos do meu mestre. Esses três foram, e são, a minha maior referência no Aikido. Depois, quando comecei a viajar bastante para treinar, comecei a conhecer e me aproximar dos professores do Hombu Dojo. Naturalmente, com esses treinos e essa relação acabou dando um norte também a minha prática. Hoje, além dos professores do Hombu, como Doshu Moriteru Ueshiba, Waka sensei, Seki sensei, Yasuno sensei, Miyamoto sensei, Toriumi sensei, Yokota sensei, Osawa sensei, Kobayashi sensei, Sugawara sensei, Kuribayashi sensei, Kanazawa sensei, Fukimaki sensei e Irie sensei, também tenho como grande referência o Ichiro Shibata sensei, que reside em Berkeley, na Califórnia. Nos últimos tempos também, tenho absorvido muito dos meus sempai’s, em especial do Didier Boyet sensei, que sempre foi uma referência enorme no meu Aikido, e do Luis Gentil sensei, que é uma joia que temos por aqui e sempre que treino com ele ganho anos de prática.

4. Durante seu caminho de aprendizado no aikido, pensou alguma vez em desistir?

Léo sensei: Desistir eu nunca pensei, sempre me senti vivo no tatame e treinando Aikido, mas já tive momentos bem difíceis. Um deles, era que sempre treinei de maneira intensa, porém não sabia diferenciar intensidade de brutalidade; muita gente reclamava com o Ono sensei sobre isso, com razão, mas ele sempre soube lidar com essa situação. Mesmo assim, tinha momentos que não me sentia bem vindo, não por ele, mas entre alguns alunos. Aos poucos, o tempo passou, eu mudei, eles pararam e aqui estou.

5. Quais foram seus maiores desafios nesse processo?

Léo sensei: Desafio é uma palavra bem interessante; se formos na etimologia dela, vem do Latim Disfidare, “renuncia a própria fé”, DIS é de afastamento, FIDES é fé, confiança. Seria como um questionamento ou situação que nos levaria ao extremo de renunciar ao que cremos, ou de abraçarmos a dúvida para acharmos uma solução. Nesse sentido, cada instante do treino é um desafio em si, aonde colocamos em cheque tudo o que sabemos, para vermos nossas certezas serem desmoronadas e surgirem dúvidas e mais dúvidas.  No entanto, como toda palavra, com o tempo foi tomando outros significados como provocar, duelar, um problema que demanda esforço ou um ato que nos obriga a ir além de nossas capacidades. Apesar de duelar ter uma relação forte com as artes marciais, tenho a impressão que sua pergunta não se refere a isso. É sobre quais problemas tive no meu processo de aprendizagem e quais atos ou situações que me obrigaram a ir além das minhas capacidades, estou certo?

Se for isso, é difícil dizer sobre quais foram meus maiores desafios, não por desconhecê-los, mas por ter absoluta certeza que não eram, mais ainda são. Não estão no passado, são presentes, tanto no sentido de tempo como no de dádiva, aparecem diariamente no tatame. Ainda preciso aprender a lidar com a minha intensidade, ainda preciso a aprender a lidar com outro, ainda preciso lidar com diversos medos e inseguranças; se eu já tivesse superado esses desafios não creio que o treino teria tanto sentido. Sei que parece estranho, mas não vejo que a prática elimina obstáculos, você aprende a conviver com eles, às vezes, com sorte até superá-los, mas eles sempre estarão lá presentes. Por isso a necessidade de sempre se manter praticando. Talvez, o que acontece é que ao tentarmos transpor os desafios, constantemente outros novos aparecem e você vai se descobrindo através de cada um deles (por isso, vejo os desafios como um presente, uma dádiva).

É comum ter a visão que esses obstáculos são algo negativo e que ao superá-los ganhamos qualidades ou virtudes. Não penso assim. Acho que cada problema que enfrentamos na prática são no fundo expressões de nós, nos definem. A questão não é se vamos resolver ou superar, mas se vamos olhar de frente e reconhecê-los como parte integrante de nosso ser. Geralmente, gostamos de ressaltar as virtudes que adquirimos com a prática, mas não lembramos dos nossos defeitos que vem à tona. Na minha visão, não adquirimos nem virtudes nem defeitos, eles estão em nós, o treino só dá luz a eles. Nem sei ao certo sequer se temos que eliminar certos demônios nossos, assim como não temos que exaltar nossas qualidades.

6. E qual é o seu maior desafio agora, como sensei?

Léo sensei: Meu maior desafio como instrutor são três: manter me sempre aberto a aprender, mesmo que isso signifique ter que abandonar certezas e abraçar dúvidas, o que no meio do Budo (caminho marcial) chamamos de Hibi Shoshin; não atrapalhar o desenvolvimento dos meus alunos, não obrigando-os a seguirem por rotas que trilhei, ou seja, ser capaz de compreender que cada um tem o seu Aikido e sua pesquisa no caminho; e por fim, mostrar para os praticantes de Aikido, em especial meus alunos, sobre a importância da prática diária. Assim como meus desafios pessoais como praticante de Aikido, aqui também tenho a impressão de não ter uma reposta clara de como fazer para lidar com esses desafios, pelo contrário, creio que serão desafios constantes que terei que trabalhar dia a dia.

7. Quando você diz que “os desafios são uma dádiva”, podemos traçar um paralelo com a clássica frase “Masakatsu Agatsu Katsuhayabi” – a vitória sobre si mesmo? É sobre isso que você quer dizer: que os desafios não se findam e existirá sempre algo a ser vencido?

Léo sensei: Sim, é sobre isso. Quando algum desafio aparece é um presente, uma dádiva. Isso também vale para quando encontramos um erro. É aí que surge a chance de evoluir ou continuar em movimento. Sem isso, estaremos parados ou em extremo conforto. Para mim, vida é movimento e morte é estagnação.  Movimento envolve se desequilibrar, saltar obstáculos ou cair em buracos. Sim, buscamos esse ideal de estar completamente centrados e estáveis, não parados, mas alcançar esse eixo  dentro do fluxo, do movimento que é a vida. Porém, isso é o ideal. A realidade é mais bela, ela é falha. Não importa o quão bom você fique em algo, irá encontrar uma dificuldade um desafio, irá errar, irá se frustrar e, em algum momento, pode ter a sorte de encontrar uma solução. Mas, segundos após a alegria da solução vem novos questionamentos, novos muros, novos equívocos. Isso é tão humano e maravilhoso, constatar isso é uma dádiva um presente, do qual temos que estar dia a dia, Katsuhayabi, agradecendo e buscando.

8. Você já leu diversos livros sobre Aikido. Poderia citar alguns dos que mais gostou? Tem algum livro que você mantém por perto para consultar ou ler novamente? Quais suas leituras preferidas?

Léo sensei: O primeiro livro que li de Aikido foi “O espírito do Aikido”, do Doshu Kishomaru Ueshiba; é um livro que releio de tempos em tempos, até para eu relembrar do meu sentimento inicial, como também perceber novos olhares que a prática me trouxe. Lembro que um dos livros que adorei e li inúmeras vezes, foi “Aikido e a Harmonia da Natureza”, do Mitsugi Saotome sensei. No entanto, os livros de Aikido que hoje sempre mantenho por perto, leio e releio constantemente e são uma fonte de estudos e reflexões, são: “Budo”, do O’sensei, que é um livro editado antes da Segunda Guerra Mundial e tem textos, Doka’s (poemas) e fotos de técnicas com o fundador (esse livro, junto com Budo Renshu, são os dois únicos livros que podem ser atribuídos sobre supervisão direta do fundador); “The Essence of Aikido”, que colocam como autoria do O´sensei, mas é um compilado de caligrafias, desenhos, poemas e fotos do fundador com explicações do John Stevens; “The Heart of Aikido” e “The Secret teachings of Aikido”, ambos são compilados de palestras transcritas do fundador do Aikido, que originalmente foram publicadas no Aiki Shimbum, uma revista da Aikikai, e depois transformados em livros.

Porém, essas não são minhas leituras preferidas ou meus livros de cabeceira. Além de todos os quadrinhos e livros do “Calvin e Haroldo”,  tenho três livros que estão sempre ao meu lado e releio inúmeras vezes, “Tao Te Ching”, de Lao-tse, “Folhas das Folhas de Relva”, de Walt Whitman e “O Guardador de Rebanhos e outros poemas”, do Fernando Pessoa. Tanto o quadrinho, como esses três livros, não são obviamente sobre Aikido, mas abordam exatamente o que buscamos ou almejamos com o treino; creio que seja isso que me toca profundamente neles e torne os uma base para compreender e refletir o que sinto fisicamente com o Aikido.

9. Estar em contato com várias pessoas todos os dias,  o dia todo parece causar desgaste físico e até de energia. Você pratica algum tipo de meditação ou prepara o seu corpo e sua mente para lidar com isso de uma forma melhor?

Léo sensei: Sim, trabalhar com o corpo gera um desgaste físico enorme e lidar com o publico também. Eu tenho uma série de práticas individuais que faço diariamente, como meditação, exercícios de respiração, alongamento, Suburi com armas, além de Levantamento de Peso Olímpico e Ballet que faço algumas vezes na semana. Porém, não faço essas atividades como um método para lidar com o desgaste da minha profissão, faço porque gosto. Mas, tem algo que aprendi e uso como meio de lidar com esse desgaste: sono e descanso. Além de dormir a noite, faço em geral duas sestas por dia, aonde me deito e durmo. Isso é fundamental para renovar minhas energias e lidar com o desgaste do dia a dia.

10. Você ministra aulas de armas, jo (bastão) e bokken (espada). Alguns senseis não utilizam o tsuba no bokken, como costumamos ver nas suas aulas. Qual a diferença em utilizar ou não o tsuba e qual a importância de treinar armas dentro do Aikido?

Léo sensei: O uso do tsuba permite um pouco mais de proteção as mãos, o que por sua vez permite aumentar um pouco mais a intensidade dos movimentos com espada. É sempre um jogo de desequilíbrios: quanto mais segurança, menos percebemos o risco e potencialidade de dano das nossas ações. Porém, o tsuba faz parte do corpo da espada, então acho interessante ter ele como elemento na nossa prática, mesmo que isso possa implicar num falso senso a mais de segurança.

Sobre treinar com armas no Aikido, é uma questão interessante. Conheço pessoas que nunca treinaram com armas e tem um Aikido incrível, e pessoas que treinam armas e nem tem um Aikido tão interessante. No entanto, vejo como fundamental treinar com elas. Primeiro, é o mesmo quando descobrimos a etimologia de uma palavra, tudo ganha um novo e mais profundo significado. Ao treinarmos com espada, bastão ou faca,  vemos a origem e simbolismo de muitos dos movimentos. Segundo, na história da humanidade nunca combatemos sem armas, elas sempre estiveram presente e são um aspecto essencial da nossa condição humana, quer queiramos ou não. Tentar compreender o confronto físico e seus riscos de lesão e morte, sem colocar armas em pauta é, na minha opinião, um equívoco. Terceiro, ao praticarmos com elas, nos colocamos em três condições: uma de igualdade, aonde ambos estão armados, o que é fundamental para eliminar diferenças físicas, como tamanho, peso e idade; outra de vantagem,  quando estamos armados e o atacante não, o que ajuda muito quando sentimos que apenas nosso corpo, ou técnica corpo a corpo, é incapaz de nos defender (não devemos subestimar o poder psicológico de estar armado); e por fim, em desvantagem, quando o parceiro está armado, o que é fundamental no aspecto marcial, pois depois de muitos anos de treinos, mesmo situações consideradas desconfortáveis podem ser tranquilas para um praticante lidar, mas uma arma na sua frente, com alguém querendo te matar, jamais será algo fácil, esse sentimento é sempre importante manter presente.

11. Quantas vezes você já esteve no Japão para treinar no Hombu Dojo? Quando você viaja pra lá, seu objetivo é apenas treinar no Hombu ou realiza treinamentos em outros dojos do Japão também? Comente sobre essa experiência.

Léo sensei: Já estive treinando no Japão mais de 15 vezes, sempre para treinar no Hombu, esse sempre foi meu foco, tanto que até hoje não conheço cidades como Kyoto e Osaka. As vezes visito outros dojos, mas são locais em que os mestres do Hombu dão treino, ou em algum dojo que me convidam para dar treino, em geral, de amigos do próprio Hombu.

Para mim, o Hombu Dojo é um local inspirador. Inúmeros mestres, cada um com a sua particularidade, repleto de praticantes entusiasmados que treinam mais de uma vez por dia. Isso torna a atmosfera do dojo especial para qualquer apaixonado pela prática. Mas muito além do aspecto técnico, tem algo ainda mais incrível que sinto lá. Temos pessoas de todos os continentes praticando junto, comunicando sem verbalizar, através de seus corpos e do Aikido, não importando a nacionalidade, cor da pele, gênero ou idade, o único ponto é treinar. Isso é algo que me toca profundamente, o treino pelo treino, o amor pela prática.

12. Como este blog é sobre “mulheres no aikido”, gostaria que você descrevesse como era treinar com mulheres enquanto aluno e como é treinar/ dar aula para mulheres atualmente?

Léo sensei: Não vejo diferença no meu sentimento em treinar com as mulheres e no dar aulas para elas. Em ambos os casos, não vejo o gênero, vejo o ser humano. Tem pessoas que tem facilidade, outras não; temos dias que estamos bem outros não; algumas coisas entendemos bem, outras não. Isso não tem relação com o gênero, isso é humano. Claro que algumas características são mais evidentes na média, além de ter padrões socioculturais que forçam um comportamento. Mesmo assim, acho fundamental nos relacionarmos com alguém como humanos, independente de características, como gênero, idade ou condição social e física.

13. De um modo geral, as mulheres estão em menor número nas artes marciais. Você concorda com isso? Comente.

Léo sensei: Sim, concordo, contra fatos não há argumentos. Tem muitos motivos, o principal, a meu ver, é cultural. Temos uma cultura machista, não só aqui, mas no mundo. Isso afeta a todos, o meio marcial incluso.

O universo marcial foi por muito tempo associado ao masculino, o que é um equívoco. Fora isso, muitas vezes as mulheres vêm treinar, vencendo um preconceito social e não encontram um ambiente receptivo; além das dificuldades naturais da prática, ainda tem que lidar com tolices machistas, que sim, ainda imperam, mesmo que inconsciente no nosso meio. Por último, devido aos fatores anteriores, temos poucas mulheres altamente graduadas ou em posição de grande destaque e referência. Se queremos ter mais mulheres treinando, precisamos dar mais destaque as boas praticantes que temos. Nesse ponto, mesmo com todas essas adversidades, vale lembrar que um dos maiores nomes do Aikido atual é uma mulher, Yoko Okamoto shihan.  

14. Você diz que uma das suas preocupações é controlar a sua intensidade. Isso é uma constante ou você tem essa percepção em algum momento que está ou não exagerando?

Léo sensei: É uma constante. Eu treinei por muitos anos focado em poder, ser muito forte. Isso foi um empecilho para meu bom desenvolvimento. Fiquei forte, mas deixei de perceber o outro. Hoje busco mais qualidade técnica, não apenas jogar alguém forte no chão. Além disso, sei do potencial destrutivo que meus movimentos têm, por isso sempre pratico com o freio de mão puxado. Às vezes, só isso não é suficiente.  Mesmo indo devagar pode ser muito além do que o parceiro ou a parceira aguenta. Em outros momentos, estou cansado, ou muito animado, e esqueço de dosar, aí acabo sendo perigoso. Não é algo que gosto, mas tenho que carregar esse ônus, ou responsabilidade, por algo que busquei e consegui.

15. Como você enxerga o Aikido nos dias de hoje e quais são suas expectativas para o Aikido no futuro?

Léo sensei: O Aikido hoje está numa baixa, temos cada vez menos praticantes, que treinam bem menos do que antes, e o número de pessoas interessadas vêm diminuindo ano a ano. Por sorte, a tecnologia permite que possamos nos conectar com vários apaixonados e dedicados aikidokas pelo globo, o que faz ter uma sensação de que nem tudo está perdido. Mas não vejo toda essa baixa pelo aspecto negativo. Tudo é cíclico, talvez seja o momento de renascermos, encolhermos para pegar impulso. Independente do futuro, tenho que manter algo presente, treinar e treinar. Não importa se amanhã a chuva vem, eu tenho que arar a terra e plantar. Caso venha ótimo, vai semear, se não vier, fiz a minha parte. O futuro é incerto. Olhando pela imagem de agora não é o melhor dos cenários, mas uma coisa é certa, tenho que treinar, e vou.

16. Existe um comentário de que o aikido está envelhecendo e que os jovens não se interessam por essa arte marcial. Qual a sua opinião sobre isso?

Léo sensei: É outro fato, não tenho como contestar. Entrei com 14 anos, era um dos mais novos, tenho quase 38, ainda sou um dos novos no tatame. Tem inúmeros aspectos nisso. Um deles é que esse é um problema nas Artes Marciais em geral, a maioria vem envelhecendo, vai além do Aikido. Hoje existem múltiplos interesses para os jovens, vídeo game, streaming, além das demandas escolares que, na minha opinião, tornarem-se absurdas. Um estudante hoje tem uma agenda lotada de obrigações. Mal tem tempo de não fazer nada, o que dirá treinar uma Arte Marcial. Fora isso, ainda tem um aspecto da cultura do Aikido. Não temos competição, logo nosso padrão, nosso modelo de praticante, ou de alto nível, está nos mais velhos, aqueles que treinam há 40, 50 anos ou mais. Isso é incrível, pois conseguimos o que muitas atividades físicas não fazem, reverenciar os mais velhos. Porém, acabamos não gerando modelos que os mais novos possam se inspirar de imediato. É similar com a questão das mulheres; para se ter mais jovens, devemos ter mais jovens na linha de frente, dando aula, seminários e afins.

17. Muitos praticantes de Aikido dizem que “seguem o budo, o caminho”. O que é o Budo para você?

Léo sensei: Budo é o caminho marcial, é vivenciar o conflito, compreender que nosso maior dilema, nossa maior luta, é que estamos vivos e vamos morrer. Essa é uma questão profunda. ‘O que estamos fazendo aqui? Qual é o sentido da vida?’ Acho que todo caminho e filosofia tenta, à sua maneira, responder a isso. Indo mais específico, o Budo na sua essência, é um caminho que lida com o que temos de mais selvagem, nosso instinto de sobrevivência e agressividade, juntamente com o que temos de mais humano, respeito, compaixão e amor. É uma tentativa, singela e bela, de buscarmos equilibrar caos e ordem, barbárie e civilização, que habita cada um de nós. Tudo isso, não através de palavras, mas de ação, de experiência. No entanto, eu não diria que o verbo é seguir, é viver o Budo.

18. Por favor, deixe suas observações finais.

Léo sensei: Treinem! Isso, no fundo, é tudo o que precisa saber e fazer. Treinar é como a vida, se faz no presente. Dia a dia, treine!

Filmado em Ribeirão Preto – seminário de Leonardo Sodré – Uke: Erika Baldo

14 comentários em “Entrevistando meu mestre”

  1. Parabéns minha querida amiga pela iniciativa e também pelo lindo e excelente trabalho em prol do aikido!
    Conheço o Léo há 18 anos e é um grande privilégio tê-lo como sensei e amigo!
    Excelente entrevista! Um tributo a todos os praticantes dessa nobre arte!

    Curtido por 1 pessoa

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